Um vestido rosa e uma manada de porcos
Por Andrea Dip
Eu juro que estou tentando formular um pensamento sobre o que aconteceu na faculdade Uniban. Para quem não viu o vídeo no youtube, vou resumir: Uma moça loira, bonita e gostosa (para os padrões do que se é bonito e gostoso no Brasil) foi à faculdade com um vestido rosa, curto e decotado, porque iria para uma festa com o namorado depois das aulas. Num momento que eu ainda não consigo definir com as palavras de nosso bom Aurélio, uma multidão de estudantes saiu das salas de aula, tomou os corredores dos vários andares da famigerada faculdade, gritando “puta” em coro além de outros impropérios e seguiu a moça, que teve de ser isolada em uma sala para não ser:
a) Linchada por meninas invejosas e/ou REPENTINAMENTE moralistas
b) Estuprada por estudantes que mais pareciam ter saído do Auto da Barca do Inferno, que provavelmente nunca viram uma mulher nua, sequer seminua em suas vidinhas pequenas e medíocres.
c) Ainda mais humilhada, ofendida, quem sabe ter as roupas rasgadas em um momento de fúria coletiva.
Vestindo um avental por cima da roupa, a garota deixou o local escoltada por VÁRIOS policiais militares.
A reportagem da Folha de São Paulo, diz que a estudante teria entrado no banheiro com uma amiga, receando que algo pudesse acontecer. Cerca de VINTE meninas, repito: VINTE meninas teriam invadido o banheiro exigindo que ela mudasse de roupa. Repito: EXIGINDO QUE ELA MUDASSE DE ROUPA.
Como questionou uma colega no Blog Nota de Rodapé: “Será que as mulheres se sentem tão pressionadas pela ditadura da beleza, da magreza, dos peitões, do cabelo loiro e liso, que numa catarse descontaram todas as suas frustrações na moça? Ou será que os homens se sentem tão pressionados a só conquistar e gostar de mulheres que façam parte desse estereótipo que numa catarse também descontaram suas frustrações na moça”?
Ainda não sei o que pensar. Me sinto em um capítulo final do livro “Ensaio sobre a Cegueira” do Saramago ou, se você preferir, do filme Blindness, em que os cegos se matam, comem e defecam nos mesmos lugares, estupram uns aos outros porque mais nada faz sentido. Acho que talvez o termo seja mesmo esse: Em terra de cegos, nada mais faz o mínimo sentido.








